Sex, 14 de Dezembro de 2012 11:01 por: cnbb
Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá (AP)
Bispo de Macapá (AP)
Um jovem foi ter com um rabi para saber
dele o que devia fazer com a sua vida. Ora, o rabi sabia que o jovem vinha de
uma família piedosa, cheia de zelo e muito religiosa. Por isso, chamou alguns
dos seus discípulos e quis que o jovem repetisse em alta voz o seu pedido.
- Desejo que o rabi me dê instruções
precisas sobre o que devo fazer e o que não devo fazer na minha vida.
O rabi respondeu:
- Aproveite da vida! Quando puder
roube, mas não se esqueça de me trazer uma parte da pilhagem. Esqueça as suas
obrigações; busque, o mais que puder, os prazeres da vida. Faça um esforço
grande para ganhar sempre dos outros. Enfim: viva sem princípio algum. Só assim
conseguirá realizar-se na vida!
O jovem, depois de ouvir esses
conselhos, foi embora correndo. Passados alguns meses, o rabi perguntou aos
seus discípulos se tinham alguma notícia do jovem. Os alunos responderam que
ele estava conduzindo uma vida santa num país longínquo e que falava do rabi
como se fosse Satanás em carne e osso. O rabi sorriu:
- Se eu lhe tivesse aconselhado uma
vida virtuosa, com certeza teria obedecido, porque tudo isso ele vivia desde a
sua infância. Ele estava procurando algo novo. Somente quando lhe propus algo
de realmente diferente para ele, entendeu que o que desejava mesmo era viver na
virtude, mas agora como escolha pessoal e não por simples costume.
- E o que dizer que ele fala do senhor
como se fala de Satanás?
- O que ele diz a meu respeito não tem
valor nenhum. As palavras voam com o vento. Quando chegar o momento ele
compreenderá o bem que eu fiz para ele.
Por três vezes, no evangelho deste
domingo – terceiro do tempo de Advento – as pessoas perguntam a João Batista:
“O que devemos fazer?” E ele responde respeitando também os diversos grupos que
estão questionando. São conselhos muito bons, sempre atuais e, talvez urgentes.
A todos diz para repartir a roupa e a comida que possam ter de sobra. Aos
cobradores de impostos ensina a cobrar o justo e a não explorar. Aos soldados
diz para não extorquir dinheiro aproveitando da sua força, a não acusar
falsamente as pessoas e a ficar satisfeito com o próprio salário.
Por causa dessas palavras muitos devem
ter recebido o batismo de penitência que João administrava e feito o propósito
de mudar de vida. Alguns – poucos – devem ter permanecido fiéis à promessa,
outros – a maioria – devem ter esquecido ou encontrado uma desculpa, sempre
razoável, para fazer o contrário. Nada de novo. Com isso, quero dizer que a
resposta aos bons conselhos - e também aos mandamentos, se quisermos - não
consiste simplesmente em formular um bom propósito. A resposta verdadeira
acontece quando começamos a praticar o que afirmamos ser uma boa escolha. Para
não ter que pedir toda hora a qualquer mestre o que devemos fazer, precisamos,
talvez de uma vez por todas, decidir por nossa conta, assumir nós mesmo a
responsabilidade do que devemos e queremos fazer. A incerteza é aceitável nos
primeiros anos, quando os caminhos da vida nos parecem estar todos abertos. Os
pais sempre perguntam aos seus filhos o que querem ser quando crescerem.
Nenhuma maravilha que as crianças e os jovens mudem de opinião ou também
aceitem adaptar-se às reais possibilidades que a vida oferece. O mesmo vale
para coisas pequenas, para as quais cada um tem direito de ter os seus gostos,
sem prejudicar a si mesmo, a sua saúde e a vida dos outros. A moda e o consumo
parecem apresentar opções quase infinitas. Se o cliente pergunta o que deve
comprar, os próprios balconistas, prestativos, oferecem mil conselhos. O
parecer é de graça, o produto não.
Voltamos às escolhas sérias, aquelas que
têm também sérias consequências na vida. A profissão, a formação de uma
família, a resposta a uma vocação religiosa, os princípios éticos e morais
norteadores da nossa conduta, não são coisas que se possam perguntar aos outros
toda hora. Um dia teremos que decidir por nós mesmos e assumir a
responsabilidade das nossas escolhas.
Podemos chamar a tudo isso de
maturidade, eu prefiro chamar de liberdade. Nem Jesus queria, ou quer,
discípulos obrigados. Ao rabi da historinha pouco interessou ser chamado
de Satanás; muito mais importante era a escolha livre do discípulo de percorrer
o caminho da vida virtuosa. Perguntamos para saber, mas depois precisamos
decidir.
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