Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Neste Ano da Caridade que estamos vivendo em nossa Arquidiocese,
não podemos deixar de refletir sobre o amor desinteressado ao próximo, o ágape,
à luz dos ensinamentos de alguns Padres da Igreja.
Também vivemos o Domingo de Ramos e da Paixão,
quando, em nosso país, temos a Coleta da Solidariedade. A Igreja que partilha
os frutos da penitência quaresmal como ato concreto para os irmãos e irmãs
necessitados.
Os Padres da Igreja são muito duros em falar sobre
a questão da riqueza e a importância da partilha. São textos antigos
atualíssimos.
Como o próprio nome diz, Padres (=Pais) da Igreja
são os grandes mestres (bispos, sacerdotes, religiosos ou leigos) que, nos
primeiros séculos da história do Cristianismo, muito contribuíram, por meio de
seus estudos, para a melhor formulação e explicitação das verdades centrais da
nossa fé.
Classicamente, se entende que o último Padre da
Igreja latina foi São Gregório Magno (†604) e da Igreja oriental São João
Damasceno (†749), embora, de modo mais amplo, sejam inseridos entre eles nomes
posteriores, que também atuaram em momentos decisivos, como por exemplo, São
Cirilo e São Metódio, Santo Odon de Cluny, Santo Anselmo de Aosta, São Bernardo
de Claraval etc. (cf. Bento XVI. Os Padres da Igreja II. Campinas: Ecclesiae,
2013).
Pois bem, dentre esses Padres está São Cipriano de
Cartago (cerca de 210-258). Ele nos deixou, em meio aos seus escritos, o
importante tratado Sobre as boas obras e a esmola, publicado em 252, portanto
escrito há 1.762 anos, e que se mantém plenamente atual como se tivesse sido
redigido ontem à tarde para nós, cristãos do século XXI.
Ao falarmos de misericórdia ou do compadecer-se
ante a miséria alheia, seja ela material ou espiritual, devemos nos lembrar de
que Deus é o grande misericordioso. Mais: Ele é a misericórdia por excelência,
pois, para nos salvar e nos dar a verdadeira vida, enviou o seu próprio Filho,
Jesus Cristo, para morrer por nós e, assim, nos redimir fazendo-nos também
filhos de Deus (cf. Gl 4,7). Sim, Cristo Jesus “abaixou-se para erguer o povo
que antes jazia na terra, deixou-se ferir para curar as nossas feridas, fez-se
escravo para trazer os escravos à liberdade, e suportou a morte para elevar os
mortais à imortalidade”. São, portanto, muitas e grandiosas as dádivas da
Divina Misericórdia para conosco, peregrinos nesta terra em demanda da
Jerusalém celeste (cf. n. 1).
Contudo, São Cipriano continua dizendo que não
bastava ao Senhor Jesus vir curar-nos das feridas de Adão e extrair de nós o
veneno da antiga serpente (cf. Gn 3). Era preciso deixar-nos uma Lei que nos
ajudasse a permanecer sãos ou curados, por isso compeliu-nos a evitar o pecado
e, consequentemente, guardar a inocência. Sabendo, no entanto, que, em nossa
fragilidade e covardia, seríamos incapazes de cumprir à risca tão grande ensinamento,
Deus nos deu as obras de justiça e de misericórdia a fim de que pudéssemos
consolidar a nossa conversão e fortalecer nossa vida mediante a esmola –
entenda-se, em sentido amplo, a caridade em geral.
Muito didático, Cipriano, que falou do amor do Pai
ao enviar-nos seu Filho, lembra, agora, a missão especial do Divino Espírito
Santo ao nos falar, por meio da Escritura, que pela esmola e pela fé apagam-se
os pecados (cf. Prov. 16,6; 15,27), pois “tal como a água apaga o fogo, assim a
esmola extingue o pecado” (Ecl 3,33), ou seja, assim como a água da salvação –
derramada sobre nós no Batismo – apaga o fogo do inferno, as esmolas e boas
obras apagam as chamas causadas pelos nossos delitos. Daí, uma vez mais, a
sábia conclusão do santo cartaginês: “Se no Batismo somente se perdoam uma
única vez os pecados, a prática assídua e incessante das esmolas torna a
reconciliar-nos com Deus à imitação do que acontece no Batismo” (n. 2).
Sabemos que a celebração penitencial ou confissão é
que perdoa os nossos pecados, mas a penitência e arrependimento nos fazem
partilhar com os outros os bens deste mundo.
Afinal, no Evangelho, quando os discípulos do
Senhor foram censurados por comerem sem ter lavado as mãos, Ele respondeu:
“Insensatos! Quem fez o exterior, não fez também o interior? Antes, dai o que
tendes em esmola e tudo ficará puro para vós” (Lc 11,40-41). Aqui, Jesus
mostra, a princípio, que muito maior do que a limpeza exterior é a pureza
interior, e para consegui-la, depois do Batismo, um dos grandes meios é dar
esmolas ou praticar a misericórdia para com o próximo mais necessitado.
Eis um grande ensinamento que se põe a cada um de
nós: se o exercício da caridade misericordiosa ajuda a apagar nossos pecados, e
todos nós somos pecadores (cf. Prov 20,9; 1Jo 1,8), a consequência é óbvia:
todos precisamos, se desejarmos, após a morte, a vida eterna – realidade
refletida, muito especialmente durante o Tríduo Pascal – praticar, sem cessar,
atos misericordiosos. A partir daqui, ensina São Cipriano: “Portanto, queridíssimos
irmãos, a Palavra divina nunca se calou nas Sagradas Escrituras, quer no Antigo
quer no Novo Testamento, nem deixou de impelir e animar o povo a realizar
sempre e em toda parte as obras de Deus, e urge-o pela voz e pelas exortações
do Espírito Santo a praticar a esmola, a fim de que adquirisse a firme
esperança de chegar ao reino celestial” (n. 4).
Isso é tão real que, depois de ordenar ao profeta
Isaías a censura à casa de Jacó por seus pecados e a repreensão a ela de modo
impetuoso, o Senhor deixa claro uma verdade: só pelas boas obras poderiam os
israelitas aplacar a ira divina desencadeada por seus atos maus e, por
conseguinte, readquirir sobre eles a misericórdia divina. Eis textualmente a
Palavra de Iahweh: “Por acaso não consiste nisto o jejum que escolhi: em romper
os grilhões da iniquidade, em soltar as ataduras do jugo e pôr em liberdade os
oprimidos e despedaçar o jugo? Não consiste em repartires o teu pão com o
faminto, em recolheres em tua casa os pobres desabrigados, em vestires aqueles
que vês nus e em não te esconderes daquele que é tua carne? Se fizeres isso, a
tua luz romperá como a aurora, a cura das tuas feridas se operará rapidamente,
a tua justiça irá à tua frente, e a glória de Iahweh irá à tua retaguarda.
Então clamarás e Iahweh responderá, clamarás por socorro e ele dirá: ‘Eis-me
aqui! ’” (58,6-9).
Daí o comentário de São Cipriano: “Os meios de que
dispomos para aplacar a Deus foram-nos dados, portanto, pela própria Palavra de
Deus, pois os ensinamentos divinos mostraram o que devem fazer os pecadores,
isto é, oferecer-lhe satisfação mediante as boas obras e purificar-se dos seus
pecados com atos meritórios de misericórdia” (n. 5). Isso o testemunha
fartamente a Escritura: quem é caridoso para com o pobre recebe dele as orações
(cf. Ecl 29,12), enquanto quem não ouve a súplica do necessitado também não é
ouvido por Deus (cf. Prov 21,13), pois só é boa a oração que vem acompanhada do
jejum e da esmola (cf. Tb 12,8).
Aprendemos, assim, “que as nossas orações e o nosso
jejum perdem a força se não estiverem unidos às esmolas, e que as súplicas
isoladas de pouco valem, quando se trata de impetrar o favor de Deus, se não
estão saturadas de atos e de obras” (n. 5). Por essa razão, o tempo quaresmal
nos exorta ao importante tripé composto pelo jejum, a esmola (caridade) e a
oração.
Queiramos, pois, ler e reler com grande atenção os
ensinamentos bíblicos comentados por São Cipriano de Cartago, grande Padre e
Doutor da Igreja, a respeito das boas obras de caridade, tão importantes para
nós e para nossos irmãos e irmãs mais necessitados que temos a oportunidade de
encontrar no nosso dia a dia. Eles são (ou deveriam ser) a imagem do Cristo
zombado, ferido, chagado a precisar do nosso auxílio, seja pessoalmente, ou
pelo encaminhamento a quem possa mais diretamente ajudá-los na amenização ou
mesmo na extinção de seus indizíveis sofrimentos.
É para essa abertura ao outro que a Igreja nos
convoca, e o Ano da Caridade de nossa Arquidiocese nos estimula. Deus espera,
na pessoa do(a) sofredor(a), o nosso sim generoso e transformador. Assim seja!
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