FONTE: CNBB (SEXTA, 20
JUNHO 2014 14:41)
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte (MG)
A
Copa do Mundo no Brasil está desenhando importantes lições apontadas pelo povo,
responsável pela progressiva construção de um quadro que, passo a passo, consegue
distinguir os muitos aspectos que envolvem o torneio. De um lado, o interesse
meramente econômico de dirigentes e mandatários, os altos salários
inadmissíveis de jogadores e as indevidas apropriações políticas do esporte. Do
outro, o gosto pelo futebol, sua arte e elemento de diversão, e o exercício de
fraternidade universal, alegria e confraternização que reúne diferentes
línguas, culturas e nações.
Sem
perder essa luz própria, mesmo com as sombras de algum cenário de violência e
vandalismo, o povo mostra uma força que deve servir de alerta a governantes,
especialmente neste ano eleitoral, e a todos os construtores da sociedade
pluralista. Trata-se de uma mobilização que não apenas pode, mas deve se
manifestar nas urnas. O voto consciente tem a propriedade para reconstruir a
sociedade. Para alcançá-lo, é preciso reconhecer-se como cidadão, parte de uma
grande comunidade que deve caminhar unida em busca da superação dos desafios
que atrapalham o desenvolvimento do país. O ambiente que vem sendo
construído pelo povo, ao longo desta Copa do Mundo, pode contribuir para que se
alcance esse objetivo.
A
vibração pelo esporte e a inteligência de não se perder a oportunidade da
confraternização entre as pessoas estão sendo vividas de uma maneira muito
singular. Essa particularidade está na postura político-cidadã de gestos como a
acolhida aos visitantes e a realização de manifestações pacíficas, altamente
significativas. Nos próprios estádios, o povo quebra o protocolo dos
organizadores e canta mais forte, de modo completo, o hino nacional, fazendo
ecoar um recado de cidadania e o entendimento de que o governo de uma sociedade
é feito pelo povo. Deste modo, seus delegados e representantes devem estar a
serviço do bem comum.
A
Copa do Mundo gera uma oportunidade para o próprio povo mostrar que não é
multidão amorfa, inerte, a ser manipulada e instrumentalizada. É, na verdade, a
união de pessoas, cada uma no seu lugar e a seu modo, como ensina a Doutrina
Social da Igreja Católica, com autonomia para formar opinião própria a respeito
da coisa pública e de exprimir sua sensibilidade política em vista do bem
comum. Quando os representantes do povo aprendem a ouvir a voz que vem das
ruas, em vez de obedecerem aos interesses partidários e de segmentos poderosos,
tornam-se políticos dignos de autêntica estatura cidadã, capazes de trabalhar
em busca de uma sociedade justa, solidária e civilizada.
O
povo está sinalizando aos “profissionais da política”, nos âmbitos legislativo
e executivo, que é urgente a comprovação desse pacto com o bem comum antes de
se submeter às urnas. A autoridade política não pode ser fruto meramente de
conchavos, articulações partidárias interesseiras garantidas pelos leilões de
cargos e de vantagens, mas de um incondicional respeito e vivência de inegociável
moralidade. Compreende-se, portanto, que a autoridade política não se esgota
simplesmente em alguns feitos quase sempre distantes das mais urgentes demandas
sociais. Trata-se, justamente, de reconhecer que essa autoridade é o povo,
detentor da sua soberania, conforme bem ensina a Doutrina Social da Igreja.
A
Copa está confirmando a etapa nova inaugurada em junho do ano passado, quando a
sociedade brasileira, em muitas manifestações, fez ouvir a sua voz. Há um senso
comum no mais recôndito da consciência popular que está se aflorando pela
alegria proporcionada pelo futebol. Um clima de confraternização que não inclui
governos e deixa recados para os políticos, mantendo distância daqueles que
usufruem absurdamente do que pertence ao bem comum. O Mundial, no
conjunto de suas circunstâncias e desdobramentos, participação e debates,
manifestações e indiferenças, está fazendo crescer - e que não seja perdida a
oportunidade - uma sociedade brasileira politicamente diferente.
Vive-se
um momento que precisa de desdobramentos e não pode ser perdido, com o término
da Copa e a partir da profusão de discursos políticos obsoletos,
particularmente aqueles que se constroem com os ataques mútuos e com as
promessas sempre não cumpridas. O Mundial pode mesmo ser um exercício de
vitalidade do povo, por suas escolhas de alegrar-se, manifestar-se, manter
distâncias, debater e formar opinião de modo que a participação política
ultrapasse os atos formais de votar e mesmo de se reunir em associações,
partidos e sindicatos. É hora de um passo qualificado na política, diante da
insatisfação com governos e representantes, em busca de uma sociedade
politicamente mais cidadã e igualitária. Quem sabe, por isso mesmo, esta será
para os brasileiros a “Copa das Copas”, porque sem esgotar-se em euforias que
permitem manipulações, aponta um amadurecimento político do povo.
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